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O aroma de Minas vem do café

Fernando Torres

Doizum Comunicações




Leo Montesanto, CEO e um dos fundadores da Coffee Mais. Foto: Acervo pessoal

Tomar uma xícara de café assume um plano mais elevado em Minas Gerais. Se fosse um país, o estado seria o maior produtor do grão no mundo. Só na safra 2022, os cafeicultores mineiros entregaram 22,03 milhões de sacas, mesmo enfrentando fatores climáticos, como geada e seca, em 2021. Os números equivalem a 44% de toda a produção nacional e foram superiores à contabilizada no ano anterior, cuja safra registrou 21,45 milhões de sacas. Naquele ano, a exportação para 93 países movimentou R$4,4 bilhões para o mercado local, segundo dados do Governo de Minas. A produção de café em Minas começou no início do século 18, na Zona da Mata. A consolidação, porém, veio apenas na década de 1970, devido à Geada Negra, severo fenômeno climático que atingiu o estado do Paraná em 1975, prejudicando toda a colheita daquele ano e dizimando uma grande quantidade de lavouras, o que motivou muitos produtores paranaenses a migrar para Minas. Hoje, estima-se que mais de 450 municípios mineiros cultivam café, um total de 45 mil produtores, em área de 1,3 milhão de hectares, com 99% dos grãos classificados como do tipo arábica, segundo levantamento recente da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Somente a cooperativa Cooxupé, com núcleos localizados em 300 municípios em Minas Gerais e no Vale do Rio Pardo, em São Paulo, possui mais de 17 mil cooperados, 97% advindos da agricultura familiar. Em 2022, a Cooxupé registrou patamar recorde no recebimento de grãos, com 86.598 sacas de café e 1.841 lotes, expansão de 39,4% em relação a 2021. Café do cerrado Primeira região do país a receber o certificado de Denominação de Origem, pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), em 2014, o Cerrado Mineiro tem o terroir ideal para a cafeicultura: altitudes entre 1.000 e 1.200 m, solo de baixa acidez, relevo mais plano e temperatura quente e úmida no verão e amena e seca no inverno. A combinação dessas características geográficas resulta em um café singular, limpo e adocicado, de acidez média e corpo cremoso. O Cerrado Mineiro tem alguns bons de exemplos de cafés especiais, categoria que passa pela rígida metodologia mundial de avaliação sensorial da SCA (Specialty Coffee Association) – a nota de corte são 80 pontos em 100, com avaliação de diversos atributos bastante objetivos, como ausência de defeitos (nos grãos), fragrância, doçura, acidez, uniformidade e corpo. Dentre eles, está a Fazenda Dona Neném, de Presidente Olegário, que exporta café verde para mais de 30 países, para marcas como Nespresso, Illy e Starbucks. “Com o crescimento do público brasileiro interessado em café especial, pensamos em construir uma marca própria, com diversas variedades de nossa produção de maior pontuação”, conta Isabela Bertol, nora do engenheiro Eduardo Campos, à frente da fazenda desde 1976. Em 2017, ela criou a marca Mito – Cafés Especiais, com quatro rótulos que contam um pouco da história de quatro gerações da família Campos e das lendas da região. Destaque para o Benzedô e o Cantagalo, ambos com 85 pontos: o primeiro alude a um homem conhecido pelas rezas em prol da colheita e dos agricultores, enquanto o Cantagalo conta a lenda de um galo com olhos de fogo que aparece na garupa de quem ousa cavalgar pela fazenda à meia-noite. “São cafés bastante contrastantes, embora ambos resultem de bourbon amarelo. O Benzedô é mais equilibrado, com doçura marcante, aroma floral e sabor pronunciado de frutas cítricas. Já o Cantagalo envereda por nuances mais exóticas, com notas de frutas amarelas e um toque de mel”, descreve.


A saga dos Vel(l)oso

O terroir do cerrado também é lar da gigante São Luiz Estate Coffee, mais especificamente a Fazenda São Luiz, em Carmo do Paranaíba. O início da produção remonta ao fim dos anos 1960, quando o produtor Miguel Velloso vislumbrou a oportunidade cafeeira na fazenda da família. Anos depois, seu filho, Fausto, engenheiro de formação, passou a investir na profissionalização das operações e na busca por cafés de qualidade. “Meu pai foi um dos pioneiros no sistema de irrigação de gotejamento, que entrega a água e os nutrientes de forma mais eficiente para o cultivo, e a desenvolver a técnica ‘cereja descascado’, em que a fruta do cafeeiro tem sua casca externa retirada para se fazer a secagem das sementes”, relata a gerente comercial Ana Cecília Velloso. Sua linha de cafés especiais, a São Luiz Speciality Estate Coffee, atinge uma média anual de 5 mil sacas da variedade catuaí, com média de 84 a 85 pontos. Já os lotes especiais das safras de 2013 e 2017 conquistaram o V Prêmio Região do Cerrado Mineiro, com 89 pontos na avaliação sensorial. Não se pode confundir a família Velloso, grafada em dois LL, com a família Veloso, de um L só, proprietária da Veloso Coffee, também na área rural de Carmo do Paranaíba, dividida em três complexos de fazendas: Santa Cecília, Santa Rita e Palmeira. Gigante em exportação há mais de 40 anos, a produção sempre foi escoada em quase sua totalidade até o porto de Santos, rumo aos mercados internacionais. Sob direção do pioneiro Pedro Humberto Veloso, desde 1977, a Veloso Coffee tem cafés especiais e super especiais. Neste último caso, são microlotes e nanolotes limitados com pontuações acima de 86 e perfis que mudam a cada colheita. Já os cafés especiais têm nuances marcantes do Cerrado Mineiro, com predominância de notas de chocolate ou frutadas, resultado da separação dos processamentos natural e cereja descascado. E mais café! Não se pode falar dos cafés mineiros sem citar a produção do Sul de Minas e da Serra da Mantiqueira, em cidades como Cristina, Carmo da Cachoeira e Nova Resende. A região é privilegiada pela altitude, pelo relevo plano-ondulado, pelo solo com nutrientes que ajudam no desenvolvimento dos grãos e, por fim, pelo clima, que alterna entre as chuvas de verão e o frio seco do inverno. É em Carmo de Minas que fica a Fazenda Santuário do Sul, no terroir Mantiqueira de Minas, sob a responsabilidade do produtor Luiz Paulo Pereira. Em 2005, ele atingiu a pontuação mais alta do mundo no Cup of Excellence, de 98.85, não superada até hoje. Trata-se de um café com notas sensoriais de goiaba, frutas roxas e muito caramelo, disponibilizado hoje pela join-venture Coffee Mais, marca de cafés especiais lançada em outubro de 2020.

Leo Montesanto. Foto: Acervo pessoal

Leo Montesanto, CEO e um dos fundadores da Coffee Mais, possui relação com o café desde a infância. Ele cresceu em meio à cafeicultura, na Fazenda Primavera, em Angelândia, terroir da Chapada de Minas, comandada pelo pai, Ricardo Tavares e, antes disso, pelo avô, Aprígio Jr. O trabalho de quase 70 anos da família teve seu ápice em 2018, quando a propriedade conquistou o título de Melhor Café do Brasil, no campeonato Cup of Excellence. “Na sequência, disputamos o torneio mundial, com mais 15 países produtores, alcançando 93.89 pontos, a maior nota do mundo naquele ano”, conta. O café campeão atende pelo nome de geisha. Originária da Etiópia, a variedade exótica se destaca pela acidez equilibrada e aromas de jasmim e carambola e tem o status de iguaria desde que foi apresentada no Concurso Best of Panamá, em 2004. “É o café mais desejado do mundo. A Fazenda Primavera exportou a saca premiada por US$19 mil”, relata o empresário.


E assim, entre os sabores e os aromas que saem dos nossos cafezais, Minas se destaca mais uma vez e fortalece a sua identidade. E aí? Vai um cafezinho?


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