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A “marvada” mineira

Fernando Torres Doizum Comunicações

“Onde mói um engenho, destila um alambique”, já registrava Câmara Cascudo. Se, apesar das incertezas, a origem da cachaça no Brasil é atribuída aos engenhos de cana-de açúcar de São Vicente (SP), por volta de 1532, não demorou para que sua produção ganhasse rapidamente os estados do Nordeste. Porém, é em Minas Gerais que o destilado, um dos símbolos da brasilidade, protagoniza a conquista dos paladares brasileiros e estrangeiros que experimentam a nossa “marvada”.


Cachaça Anísio. Foto: Acervo pessoal

Minas responde por 397 dos 1.131 produtores formalizados no Brasil, com 1.908 rótulos, em um total nacional de 5.523 rótulos registrados, segundo o Anuário da Cachaça 2021, realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Somente a região de Salinas, no Norte de Minas, tem 130 produtores e 166 marcas artesanais, segundo a Associação dos Produtores de Cachaça de Salinas – embora apenas 23 destes fabricantes sejam credenciados ao Mapa. É praticamente o mesmo número total de São Paulo, o segundo colocado no país, com 128 produtores e 705 marcas. Enquanto os mineiros têm raiz artesã, em alambique, os paulistas se especializaram na “cachaça de coluna”, em linha industrial.


“Antigamente, a tendência era ter domínio industrial da destilaria, priorizando a quantidade e não a qualidade. Hoje, as indústrias maiores têm perdido espaço, e as bebidas com qualidade conquistam prêmios internacionais e reconhecimento”, avalia o engenheiro de alimentos Arnaldo Ribeiro, instrutor da Fazenda Escola Cana Brasil, de Itaverava, a cerca de 120 km de Belo Horizonte. A instituição já treinou mais de 6 mil profissionais, muitos donos de marcas famosas.


Segundo Ribeiro, a produção da boa cachaça exige destilação lenta e separação da fração inicial, a cabaça (ou cabeça), da fração final, a cauda. “O principal predicado de um mestre alambiqueiro é a experiência de aplicar a teoria na produção da bebida, desde o plantio, a moagem, a elaboração do fermento, o controle da fermentação, a destilação e o envelhecimento”, diz.


O aperfeiçoamento da técnica também passa pelo entendimento do blend, que consiste na harmonização de duas ou mais bebidas envelhecidas em barris de madeiras diferentes ou com diferentes tempos de maturação. “O Brasil é o único país que envelhece com madeiras diferentes do carvalho europeu e americano: isso possibilita experiências maravilhosas de sabores e aromas e tornam cada cachaça um produto único. Minas, particularmente, utiliza muito as madeiras de bálsamo, amburana e jequitibá”, explica o especialista.


Fábrica de alambiques


É também em Itaverava que se localiza a Fábrica de Alambiques Santa Efigênia. A empresa, criada em 1948, atende a milhares de produtores com alambiques à fornalha e a vapor. “A fabricação do equipamento inicia com o corte da chapa, que passa por um processo de modelagem e rebatimento. Na sequência, soldas especiais fazem a junção das partes. Por fim, o metal passa pelo polimento, para ganhar o famoso brilho dourado”, descreve o gerente de vendas Rafael Santos, neto do fundador da fábrica, Geraldo Pereira.


Santos calcula que mais de 90% das produtoras de cachaça artesanal do país, sendo 60% delas em Minas, trabalhem com os alambiques Santa Efigênia, dentre elas, as marcas mineiras Anísio Santiago e Salinas; Sanhaçu, de Pernambuco; e Paratiana, do Rio. A fábrica também direciona 5% das vendas ao mercado de exportação, com destaque para clientes das Américas do Sul e Central, devido à produção de bebidas locais, como tequila, pisco e singani – há modelos específicos para cada tipo de destilado. “Este nicho cresce bastante no país, inclusive em Minas, onde muitos produtores têm procurado maquinários para a produção de gim, vodca e rum. Mas ainda 70% dos mineiros produzem apenas a tradicional cachacinha”, relata.


Salinas, o país da cachaça

Escola de Cachaça em Itaverava. Foto: Guto Aeraphe

A 600 km de Belo Horizonte, está a região de Salinas, conhecida pela qualidade de sua cachaça. O terroir geográfico abrange os municípios de Salinas, Novorizonte, Taiobeiras, Rubelita, Santa Cruz de Salinas e Fruta de Leite. Havana, o rótulo mais célebre, nasceu em 1943, fama equiparada à marca Anísio Santiago, lançada em 2001, para homenagear a “graça” do fundador. Ambas são produzidas na Fazenda Havana, de forma rigorosamente artesanal: têm produção de apenas 10 mil litros por ano e envelhecem por 12 anos em tonéis de bálsamo.


Entre as outras marcas badaladas em Salinas, está a Lua Cheia. Produzida desde 1975, ela passa por três anos de envelhecimento em tonéis de bálsamo, de onde é engarrafada com sabor marcado por notas de anis e aroma intenso de especiarias. A empresa criou, ainda, em 1988, a marca Meia Lua, com teor alcoólico menor e mais indicada para drinques. Os mesmos fabricantes produzem a Beleza de Minas Ouro, em substituição à antiga cachaça Paladar: o líquido precioso é envelhecido em umburana e foi exportado para os Estados Unidos antes mesmo de ser comercializado no Brasil.


Outra afamada de Salinas é a Seleta, que se autodenomina como maior produtora de cachaça artesanal do país. Fundada em 1980, pelo folclórico “coronel” Antônio Rodrigues, é produzida artesanalmente na Fazenda Engenho dos Rodrigues, destilada em alambiques de cobre e armazenada em barricas de umburana, bálsamo, jequitibá, ipê-amarelo e carvalho-francês – a edição Antônio Rodrigues, série numerada e limitada, foi premiada com medalha de ouro no 19º Concurso de VInhos e Destilados do Brasil, em 2020. Foi, também, finalista do International Sugarcane Spirits Awards 2021, em Paris. Entre os rótulos da Seleta, destaque ainda para a Boazinha, envelhecida por 30 meses em tonéis de bálsamo, e para a Saliboa, armazenada por três anos em barris de ipê-amarelo.


Alerta para a informalidade


Fabrica Alambique em Itaverava. Foto: Guto Aeraphe

Embora o mercado de cachaça seja um celeiro de oportunidades, tanto no mercado interno quanto externo, preocupa o abundante cenário de informalidade em Minas, como revela a própria região de Salinas. E isso não apenas por uma questão de segurança alimentar, mas também pelo grande potencial econômico desperdiçado. “Isso pode levar o pequeno e médio produtor a perder oportunidades significativas, além de colocar em risco não só seu crescimento e sua lucratividade, como a própria sobrevivência da empresa”, avalia José Lúcio Ferreira, presidente da Expocachaça, maior e mais importante feira de cachaça do país, criada em 1998 e realizada anualmente em Belo Horizonte.


De fato, em termos de exportação, Minas fica apenas em quinto lugar em faturamento: US$1 milhão contra a cifra de US$6,09 milhões alcançada por São Paulo. “É importante, primeiro, consolidar o produto, para depois competir entre marcas; inovar, para estimular experimentação; criar ocasiões de consumo; expandir perfis de consumidores; e, sobretudo, consolidar a categoria frente a outras bebidas alcoólicas”, acredita Ferreira.


Um bom exemplo de longevidade e sucesso nos negócios é a Cachaça Limeira, em Machado, no Sul de Minas, que celebrou 112 anos em 2022, ainda com a receita original, de fermentação natural. Entre os novos produtos, pós-centenários, estão edições de reserva especial: a prata, envelhecida em barris de jequitibá, e a ouro, em barris de carvalho. Por aquelas bandas, a cachaça Dedo de Prosa, de Piranguinho, também se destaca na exportação. Cerca de 20% dos 50 mil litros fabricados anualmente são enviados para países como Suíça, Angola, Canadá e China. Sinais de profissionalização e de novos mercados para mais esse elemento identitário de Minas Gerais


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